Uma questão de tempo
Há tempos percebo o tempo sem tempo.
A rotina me fez prisioneiro. A nostalgia encarcera meus dias. As horas estão trancafiadas em uma masmorra, reféns dos minutos que passam em segundos.
Os meses tentam, em vão, trazer memórias do que um dia fui. São doze? Qual a dose? Veneno e remédio, ambos se tornam alívio.
Sem perceber, janeiro já está aí e, por um milissegundo, veja só! Já é Natal.
Os anos se aglomeram em décadas, séculos, milênios, e eu ainda tento terminar aquele livro. O filme de duas horas, até a última contagem, já dura um ano.
Trinta primaveras me parecem um infinito de acontecimentos. E as perguntas ressoam na velocidade da luz: quanto tempo? Quanto resta? Os attossegundos dos elétrons dos átomos roubam minha existência.
E mais uma pergunta inunda o limite do meu pensamento: quando não mais houver o tempo, ao menos no que se diz respeito às leis da física, o tal tempo de Planck, onde tudo o que rege meu tempo não faz mais sentido, o que foi do tempo que se foi? O que resta do aqui e agora?
E assim, em um piscar de olhos, o tempo se desfaz, enquanto a vida é observada por uma janela de vidro.


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